segunda-feira, 9 de julho de 2007

Revolução

Manhãzinha cedo, senti acordar-me o sopro da voz ciciada de minha mulher:
- 0 Fafe telefonou de Cascais, ... Lisboa está cercada por tropas…
Refilo, rabugento:
- Hã? (...)
Levanto-me preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Espreito através da janela. Pouca gente na rua. Apressada. Tento sintonizar a estação da Emissora Nacional. Nem um som. Em compensação o telefone vinga-se desesperadamente. Um polvo de pânico desdobra-se pelos fios. A campainha toca cada vez mais forte.
Agora é o Carlos de Oliveira.
- Está lá? Está lá? É você, Carlos? Que se passa?
Responde-me com uma pergunta qualquer do avesso.
Às oito da manhã o Rádio Clube emite um comunicado ainda pouco claro:
- Aqui, Posto de Comando das Forças Armadas. Não queremos derramar a mínima gota de sangue.
De novo o silêncio. Opressivo. De bocejo. Inútil. A olhar para o aparelho.
Custa-me a compreender que se trate de revolução. Falta-lhe o ruído, (onde acontecerá o espectáculo?), o drama, o grito. Que chatice!
A Rosália chama-me, nervosa:
- Outro comunicado na Rádio. Vem, depressa. Corro e ouço:
- Aqui o Movimento das Forças Armadas que resolveu libertar a Nação das forças que há muito a dominavam. Viva Portugal!
Também pede à policia que não resista. Mas Senhor dos Abismos!, trata-se de um golpe contra o fascismo (isto é: salazismo-caetanismo). São dez e meia e não acredito que os «ultras» não se mexam, não contra-ataquem! (...)
A poetisa Maria Amélia Neto telefona-me: «Não resisti e vim para o escritório».
Os revoltosos estão a conferenciar com o ministro do Exército. Na Rádio a canção do Zeca Afonso: Grândola, vila morena ... Terra da fraternidade... 0 povo é quem mais ordena...
Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas.

De súbito, aliás, a Rádio abre-se em notícias. 0 Marcelo está preso no Quartel do Carmo. A polícia e a Guarda Republicana renderam-se. 0 Tomás está cercado noutro quartel qualquer. E, pela primeira vez, aparece o nome do General Spínola. Novo comunicado das Forças Armadas. 0 Marcelo ter-se-á rendido ao ex-governador da Guiné. (Lembro-me do Salazar: «o poder não pode cair na rua»).
Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo.

A Maria Keil telefonou. 0 Chico está doente e sozinho em casa. Chora. (Nesta revolução as lágrimas são as nossas balas. Mas eu vi, eu vi, eu vi! (...)
Antes de morrer, a televisão mostrou-me um dos mais belos momentos humanos da História deste povo, onde os militares fazem revoluções para lhes restituir a liberdade: a saída dos prisioneiros políticos de Caxias.
Espectáculo de viril doçura cívica em que os presos... alguns torturados durante dias e noites sem fim.... não pronunciaram uma palavra de ódio ou de paixões de vingança.
E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. (...)
Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos.
Revolução
.

José Gomes Ferreira
Poeta Militante III - Viagem do Século Vinte em mim, Lisboa, Moraes Editores, 1983

O texto de José Gomes Ferreira tem muitas expressões difíceis. Propomos-te um exercício que ajuda a compreender algumas destas expressões. Para cada afirmação só existe uma resposta possível.

Responda:

1. José Gomes Ferreira estava a dormir. O sopro da voz ciciada da sua mulher acordou-o. Esta expressão significa que o tom de voz era:

alto.
baixo.

2. O autor levantou-se preparado para o pesadelo de ouvir tombar pedras sobre cadáveres. Esta expressão significa que José Gomes Ferreira pensava que ia ouvir:

gritos na cidade.
tiros e pessoas a morrerem.

3. E o telefone vinga-se desesperadamente. Esta expressão significa que:

O telefone toca muitas vezes.
José Gomes Ferreira telefona para muitos amigos.

4. Até que , pela rádio o Posto de Comando das forças Armadas comunica o seguinte:«não queremos derramar a mínima gota de sangue». Esta expressão significa que os militares não querem:

usar as armas para matar as pessoas.
meter medo às pessoas.

5. José Gomes Ferreira sentiu os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Esta expressão significa que o autor estava emocionado; por isso,

chorou, revoltado.
chorou, espontaneamente.

6. Segundo o autor, o antigo regime era fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Esta expressão significa que o antigo regime:

não permitia a liberdade de expressão nem de pensamento.
se debatia com um grave problema de poluição.


A partir do texto de José Gomes Ferreira somos informados dos principais acontecimentos que ocorreram nos dias 25 e 26 de Abril. Coloque nas caixas em branco as letras de a a f correspondentes à cronologia da Revolução.

1. Pouco tempo depois, a rádio comunica que *Marcelo Caetano (primeiro-ministro do antigo regime) está preso no quartel do Carmo.

2. Novo comunicado informando que Marcelo Caetano se rendeu ao *General António Spínola (antigo governante da Guiné).

3. Às oito da manhã o rádio clube emite um comunicado das Forças Armadas a pedir a calma.

4. Sabe-se, também, que a polícia e a Guarda Republicana se renderam. E que o antigo Presidente da República *Américo Tomás está cercado noutro quartel.

5. Dias depois, a televisão mostra a saída dos presos políticos da prisão de Caxias.

6. Às dez e meia da manhã a população sabe que as Forças armadas dominam a situação.


O azeiteiro e o burro

Dois estudantes encontraram, numa estrada, um azeiteiro com um burro carregado de bilhas de azeite. Os estudantes estavam sem dinheiro; por isso, decidiram roubar o animal. Enquanto o pobre homem seguia o seu caminho, um deles tirou a *cabeçada do burro e colocou-a no pescoço. O outro estudante fugiu com o animal e a carga. De repente, o azeiteiro olhou para trás e viu um rapaz em vez do burro.

Nesse momento, o estudante exclamou: «Ah! senhor, quanto lhe agradeço ter-me dado uma pancada na cabeça! *Quebrou-me o encanto que durante tantos anos me fez ser burro!...» O azeiteiro tirou o chapéu e disse-lhe: «Afinal, o meu burro estava enfeitiçado! Perdi o meu *ganha-pão! Peço-lhe muitos perdões por tê-lo maltratado tanta vez - mas que quer? - o senhor era muito teimoso!»

- Está perdoado, bom homem! - disse o estudante. O que lhe peço é que me deixe em paz.

O pobre azeiteiro lamentou-se porque já não podia vender o azeite. Então, foi pedir dinheiro a um compadre para ir à feira comprar outro burro. Quando lá chegou, viu um estudante a vender o seu burro. O azeiteiro pensou que o rapaz se tinha transformado, outra vez, num animal! Aproximou-se do burro e gritou com toda a força: «Olhe, senhor burro, quem o não conhecer que o compre».

(adaptado)

Conto Tradicional Português recolhido por Adolfo Coelho


Glossário

*cabeçada do burro (pop.). Peça de couro que se coloca na cabeça deste animal para o obrigar a seguir em frente.

*Quebrou-me o encanto (pop.). Expressão que significa interromper um efeito mágico, um feitiço.

*ganha-pão (pop.). Meio de subsistir e de viver.

Responde:

1. Dois estudantes encontraram, no meio do caminho, uma bilha de azeite.

Verdadeiro
Falso

2. O azeiteiro tinha um burro que ia carregado de bilhas de azeite.

Verdadeiro
Falso

3. Um dos estudantes roubou o burro e o outro fingiu que era o animal.

Verdadeiro
Falso

4. Quando o azeiteiro viu o estudante começou a fugir.

Verdadeiro
Falso

5. O estudante disse que queria ser um burro.

Verdadeiro
Falso

6. O azeiteiro acreditou no estudante.

Verdadeiro
Falso

7. O azeiteiro pediu dinheiro emprestado para comprar um burro na feira.

Verdadeiro
Falso

8. Quando o azeiteiro chegou à feira, viu o seu burro.

Verdadeiro
Falso

9. O estudante quis dar o burro ao azeiteiro.

Verdadeiro
Falso

10. O azeiteiro pensou que o burro estava enfeitiçado.

Verdadeiro
Falso

terça-feira, 26 de junho de 2007

História do grão de milho

ERA UMA VEZ uns casados e não tinham filhos. A mulher tanto pediu a Nossa Senhora que lhe desse um filho, ainda que fosse do tamanho de um greiro de milho, que ao fim de nove meses ela pariu um filho, mas tão pequeno, tão pequeno, que era mesmo do tamanho de um greiro de milho. Foi-se passando tempo e o pequeno não crescia nada, de sorte que ficou sempre do mesmo tamanho. O pai era lavrador e, quando andava a trabalhar no campo, era o Grão-de-Milho que lhe ia levar o jantar numa cesta; mas, como era tão pequeno, ninguém o via o que fazia correr aquela cesta pela rua abaixo. O pai recomendava-lhe que não se chegasse para o pé dos bois, mas uma vez que ele tinha ido levar o jantar ao pai, a brincar trepou para cima de uma folha de milho e um dos bois, pensando que era um greiro de milho, lambeu-o com a língua. O pai quando quis voltar para casa, por mais que o procurasse não deu com ele, mas tanto chamou que por fim ouviu responder que o boi o tinha comido e estava dentro da tripa. O pai ficou muito aflito e matou logo ali o boi e começou a procurá-lo nas tripas, mas por mais que procurasse não o encontrou, até que deixou ficar tripas e tudo. De noite um lobo, atraído pelo cheiro da carne, veio e comeu as tripas do boi, e deitou a fugir. O lobo teve umas grandes dores de barriga e o Grão-de-Milho começou a gritar-lhe: "C... aí, c... aí!" Mas o lobo, ouvindo isto teve tanto medo que mais fugia e não podia obrar. O Grão-de-Milho continuava a gritar: "C... aí, c... aí!", até que o lobo tão atrapalhado se viu que fez as suas necessidades. O Grão-de-Milho logo que saiu para fora, lavou-se muito bem lavado numa pocinha que ali estava e foi por ali fora. No meio caminho encontrou uns almocreves que levavam os machos carregados de dinheiro e disse-lhes. De repente, saltam uns ladrões, matam os almocreves e levam os machos com o dinheiro para uma casa que havia nuns pinherais. O Grão-de-Milho, como ia medito numa alforges, foi também sem ser pescado. Os ladrões despejaram o finheiro em cima de uma grande mesa e começaram a contá-lo. O Grão-de-Milho pôs-se debaixo da mesa e começou a gritar: "Quem dá dé-reis, quem dá dé-reis!" Os ladrões, assim que ouviram isto, tiveram tanto medo que deitaram a fugir. Então o Grão-de-Milho ensacou o dinheiro, pô-lo em cima dos machos e foi para casa. Quando lá chegou, era ainda de noite e bateu à porta. O pai perguntou: "Quem está aí?" e ele respondeu: "Sou eu, meu pai; abra depressa." O pai veio logo abrir a porta e o Grão-de-Milho contou-lhe então tudo, entregou-lhe os machos e o dinheiro e o lavrador, que era pobre, ficou muito rico.

COELHO, Adolfo. Contos populares portugueses. 5. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1999. pp. 181-182.